Eram seis e meia da manhã quando o despertador do celular tocou. Susana acordou, desligou o despertador e, enquanto olhava para Leo deitado a seu lado, amaldiçoou sua mania de coloca-lo para despertar mesmo em sábados à noite. O despertador não foi capaz de acorda-lo, e ela sentia um pouco de inveja da situação.
Ela levantou e abriu a janela, apenas para ver mais um domingo nublado. Era o que? O quarto ou o quinto fim de semana que se passava sem ela ver o sol, já havia quase esquecido como ele era. Olhou para Leo novamente, pensando no quanto ele estava imóvel, apesar da janela ter sido aberta sem nenhum tipo de preocupação em não fazer barulho.
Sabendo que aquele sábado era um dia tão bom como qualquer outro para fazer qualquer coisa menos voltar a dormir, decidiu acordar de fato, apesar da falta de sol. Foi ao banheiro e, enquanto escovava os dentes, pensou na noite anterior, em como conheceu Leo. Lembrou-se da cantada ruim que ele dera, mas que havia funcionado por causa daquele belo sorriso e do par de olhos verdes. Como ela gostava daqueles olhos verdes acompanhados do cabelo escuro. Pensou nos drinks que dividiram e que ele insistentemente pagou, apesar da relutância dela em aceitar bebidas que ela mesma não tenha pagado.
Foi uma noite curta, ela não estava com muita paciência para jogos. A semana havia sido longa e cansativa, ela queria apenas ir para a casa dele e fazer o que deveria ser feito. Ela perguntou, ele obviamente aceitou e lá estavam eles. Ela dormiu apenas umas duas horas por culpa da mania estúpida que ela adquiriu de acionar o despertador sempre antes de dormir. Mas a mania tinha suas partes positivas, ela não gostava muito de passar mais tempo que o necessário em nenhum lugar.
Voltou para o quarto e se vestiu, sempre olhando de canto para Leo deitado, pensando na efemeridade das coisas. Pelas contas dela, ele já era o quinto nos últimos três meses, todos de cabelos escuros e olhos verdes. E ela o invejava enquanto olhava para ele depois de vestida e pronta para sair sem ele notar. Ele parece ter algo que ela não tinha, estava descansando, estava em paz.
E ela saiu daquele apartamento silencioso e quase vazio, o quinto apartamento nos últimos três meses, deixando para trás apenas uma janela aberta num dia nublado, um corpo frio estirado na cama e um pouco da inveja que ela sentia da paz em que ele estava.
domingo, 24 de março de 2013
segunda-feira, 4 de março de 2013
Verdade Áspera
Algo está ausente quando você não está por perto
Algo que faz falta dentro de algo quase completo
Esse algo pode ser um toque ou um mero olhar
Ou um espaço vazio na cama, um lugar...
As páginas nos livros não parecem suficiente
As histórias que elas contam apenas mentem
São apenas um paliativo para esse vão
Apenas um lugar para repousar minha razão
Fazem falta a boca e a sanidade
Sobram o espaço e a verdade
A verdade áspera e não lapidada
De que faz falta sua voz até calada
Quando você não está por perto, algo se perde
Como em uma artéria ferida onde o sangue verte
E quando você chega, há algo que me encontra
Eu caio em mim, como um castelo de cartas se desmonta
Faz falta a sua boca e há necessidade
Sobram o espaço e um pouco da verdade
Uma verdade bruta, áspera e não lapidada
De que faz falta sua voz até quando calada
A verdade seca e de gosto amargo
Cada vez que a distância se torna um fardo
Mas um fardo não difícil de carregar
Pois ele acabará assim que você chegar
Algo que faz falta dentro de algo quase completo
Esse algo pode ser um toque ou um mero olhar
Ou um espaço vazio na cama, um lugar...
As páginas nos livros não parecem suficiente
As histórias que elas contam apenas mentem
São apenas um paliativo para esse vão
Apenas um lugar para repousar minha razão
Fazem falta a boca e a sanidade
Sobram o espaço e a verdade
A verdade áspera e não lapidada
De que faz falta sua voz até calada
Quando você não está por perto, algo se perde
Como em uma artéria ferida onde o sangue verte
E quando você chega, há algo que me encontra
Eu caio em mim, como um castelo de cartas se desmonta
Faz falta a sua boca e há necessidade
Sobram o espaço e um pouco da verdade
Uma verdade bruta, áspera e não lapidada
De que faz falta sua voz até quando calada
A verdade seca e de gosto amargo
Cada vez que a distância se torna um fardo
Mas um fardo não difícil de carregar
Pois ele acabará assim que você chegar
domingo, 24 de fevereiro de 2013
Mutabilidade
“Se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar que tudo era pra sempre, sem saber que o ‘pra sempre’ sempre acaba?”. Não sou um grande fã do Renato Russo, mas essa frase específica é forte, tem significado. E ao contrário do que possa parecer, não foi o que me motivou a escrever isso, mas eu achei que seria uma boa introdução ao assunto.
Dito isto, hora de ir ao ponto: “eternidade”. Palavra bonita, com certa sonoridade poética, até mesmo seu conteúdo parece meio lírico, mas alguém realmente consegue entender o que isso significa? É tangível que prometer um “pra sempre” é mentiroso e que esse “pra sempre” vai existir até muito depois de nós termos morrido?
Mudemos o foco então: “por toda vida”. Alguns ainda diriam “até que a morte (n)os separe”. Ainda assim me soa mentiroso, mas ao menos mais palpável. É fácil prometer “vou estar sempre aqui”, “nunca vou te trair” e seus congêneres, são apenas palavras, basta ter boca para dizê-las (e não, piadas sobre mudos não são cabíveis no contexto).
Eu não creio que pessoas mudem, então o que eu vou dizer pode soar meio incoerente com essa (des)crença, mas não é. As coisas mudam, as nossas opiniões mudam (e quem não muda de opinião morre, isso é um fato) e, mais que isso, o que nós sentimos por alguém muda. Não pela pessoa mudar, mas porque sentimentos são baseados em retratos que nós pintamos sobre alguém, e conforme se conhece alguém, esses retratos acabam por mudar suas cores, a paisagem muda.
Os sentimentos em si, justamente por essa troca gradual de paisagem, acabam tendo sua própria mudança gradual, seja ela negativa ou positiva. Algo bonito pode virar algo feio, ficar mais belo ou apenas mudar de aspecto, ainda mantendo sua beleza inicial. Amizade pode se tornar ódio, ganhar contornos de amor ou, na melhor das hipóteses, agregar à amizade original os tais contornos de amor. E o amor também pode acabar, mas se tornar companheirismo e amizade, tendo a honestidade como fundação.
É algo complexo demais para ser compreendido ou prometido como imutável. Prometer a eternidade (ou uma vida inteira) é uma promessa tão segura quanto passar a vida dizendo que o dia de amanhã não será nublado. Por algum tempo até pode parecer um acerto verdadeiro, mas eventualmente uma nuvem vai encobrir o sol e a verdade acaba surgindo.
Dito isto, hora de ir ao ponto: “eternidade”. Palavra bonita, com certa sonoridade poética, até mesmo seu conteúdo parece meio lírico, mas alguém realmente consegue entender o que isso significa? É tangível que prometer um “pra sempre” é mentiroso e que esse “pra sempre” vai existir até muito depois de nós termos morrido?
Mudemos o foco então: “por toda vida”. Alguns ainda diriam “até que a morte (n)os separe”. Ainda assim me soa mentiroso, mas ao menos mais palpável. É fácil prometer “vou estar sempre aqui”, “nunca vou te trair” e seus congêneres, são apenas palavras, basta ter boca para dizê-las (e não, piadas sobre mudos não são cabíveis no contexto).
Eu não creio que pessoas mudem, então o que eu vou dizer pode soar meio incoerente com essa (des)crença, mas não é. As coisas mudam, as nossas opiniões mudam (e quem não muda de opinião morre, isso é um fato) e, mais que isso, o que nós sentimos por alguém muda. Não pela pessoa mudar, mas porque sentimentos são baseados em retratos que nós pintamos sobre alguém, e conforme se conhece alguém, esses retratos acabam por mudar suas cores, a paisagem muda.
Os sentimentos em si, justamente por essa troca gradual de paisagem, acabam tendo sua própria mudança gradual, seja ela negativa ou positiva. Algo bonito pode virar algo feio, ficar mais belo ou apenas mudar de aspecto, ainda mantendo sua beleza inicial. Amizade pode se tornar ódio, ganhar contornos de amor ou, na melhor das hipóteses, agregar à amizade original os tais contornos de amor. E o amor também pode acabar, mas se tornar companheirismo e amizade, tendo a honestidade como fundação.
É algo complexo demais para ser compreendido ou prometido como imutável. Prometer a eternidade (ou uma vida inteira) é uma promessa tão segura quanto passar a vida dizendo que o dia de amanhã não será nublado. Por algum tempo até pode parecer um acerto verdadeiro, mas eventualmente uma nuvem vai encobrir o sol e a verdade acaba surgindo.
segunda-feira, 28 de janeiro de 2013
Rio Escasso
Há um semi-vazio entre o sim e o não, é ali que sua voz tremula
A quase escuridão onde você fica quando não sabe o que sente
Você não sabe o porquê, mas ainda assim sua pulsação pula
Há um ruído agudo em seus ouvidos da voz que se faz ausente
O desconhecimento da sua própria carne e a presença da desilusão
São partes constituintes daquilo que você não sabe ser
As pétalas da flor que nasce após a dolorida cicatrização
Tem o mesmo aroma doce da luz fria de um dia a amanhecer
A sua parte que não faz parte porque você não a enxerga
A mão que acaricia enquanto também apunhala ao fim do abraço
Palavras são as chamas que tem a origem na sua entrega
Ao sentimento que flui como nascente em direção ao rio escasso
E é nesse preciso momento de indecisão que o rio transborda
Deixa nascer a vida onde antes não havia mais que seca
E o fio de esperança que é o que antes parecia o fim da corda
Existe apenas por existir, não perdoa e também não peca
A quase escuridão onde você fica quando não sabe o que sente
Você não sabe o porquê, mas ainda assim sua pulsação pula
Há um ruído agudo em seus ouvidos da voz que se faz ausente
O desconhecimento da sua própria carne e a presença da desilusão
São partes constituintes daquilo que você não sabe ser
As pétalas da flor que nasce após a dolorida cicatrização
Tem o mesmo aroma doce da luz fria de um dia a amanhecer
A sua parte que não faz parte porque você não a enxerga
A mão que acaricia enquanto também apunhala ao fim do abraço
Palavras são as chamas que tem a origem na sua entrega
Ao sentimento que flui como nascente em direção ao rio escasso
E é nesse preciso momento de indecisão que o rio transborda
Deixa nascer a vida onde antes não havia mais que seca
E o fio de esperança que é o que antes parecia o fim da corda
Existe apenas por existir, não perdoa e também não peca
terça-feira, 22 de janeiro de 2013
A Árvore Que Cai
Tal qual o pecador que já não se arrepende
E desistiu de fazer o sinal da cruz
Como o cego habituado à total escuridão
E que não tropeça em sua falta de luz
Eu me acostumei à ausência de vozes
E ao beijo seco e sem gosto do silêncio
Ao som da minha respiração una
A única que contradiz meu contra-senso
Sem mão alheia para aparar a lágrima
É irônica a completa falta de razão para ela
A sensação parece a de encarar uma parede
Indefinidamente esperando que se torne uma janela
E sabendo que mesmo que ela existisse
Luz não seria o suficiente para ver a paisagem
Não haveria nem sinal de sol no céu
Sem projetar sequer sombra da própria imagem
E quando se corrompe a auto-compreensão
O que resta são apenas as marcas na parede
Rasgadas a mão e tingidas de vermelho
Servindo de prova para o que a alma pede
Em cada um dos gritos que não recebe resposta
Como a árvore que cai na solidão de uma floresta
A súplica por uma resposta, mesmo que negativa
O rogo encarecido por uma mera fresta
E desistiu de fazer o sinal da cruz
Como o cego habituado à total escuridão
E que não tropeça em sua falta de luz
Eu me acostumei à ausência de vozes
E ao beijo seco e sem gosto do silêncio
Ao som da minha respiração una
A única que contradiz meu contra-senso
Sem mão alheia para aparar a lágrima
É irônica a completa falta de razão para ela
A sensação parece a de encarar uma parede
Indefinidamente esperando que se torne uma janela
E sabendo que mesmo que ela existisse
Luz não seria o suficiente para ver a paisagem
Não haveria nem sinal de sol no céu
Sem projetar sequer sombra da própria imagem
E quando se corrompe a auto-compreensão
O que resta são apenas as marcas na parede
Rasgadas a mão e tingidas de vermelho
Servindo de prova para o que a alma pede
Em cada um dos gritos que não recebe resposta
Como a árvore que cai na solidão de uma floresta
A súplica por uma resposta, mesmo que negativa
O rogo encarecido por uma mera fresta
segunda-feira, 14 de janeiro de 2013
No Escuro
No meio de todo este barulho
Gritamos tão alto que não ouvimos nossa própria voz
E mesmo com tantos ao nosso redor
Tantos rostos sem expressão, ainda estamos sós
Sinto falta de algo em minhas mãos
Mas talvez eu apenas sinta sede por algo novo
Ansiando por ser saciada de uma vez
Ou talvez seja um antigo problema que eu não resolvo
O vazio que corrói aquilo que não existe
Talvez seja apenas a vontade de sentir novamente vontade
A solidão que parece se auto-completar
Traz a saudade de sentir mais uma vez saudade
Tudo isso aqui parece tão pouco
Em um momento que parece durar uma eternidade curta
A cicatriz dura mais tempo que a ferida
Mas não é sucifiente quando a alma não luta
Sem voz, o grito não quebra o silêncio
E sem o primeiro passo, o caminho ainda fica no futuro
A vela pode passar um aeon em sua mão
Mas se não acendê-la, você permanecerá esse aeon no escuro
Gritamos tão alto que não ouvimos nossa própria voz
E mesmo com tantos ao nosso redor
Tantos rostos sem expressão, ainda estamos sós
Sinto falta de algo em minhas mãos
Mas talvez eu apenas sinta sede por algo novo
Ansiando por ser saciada de uma vez
Ou talvez seja um antigo problema que eu não resolvo
O vazio que corrói aquilo que não existe
Talvez seja apenas a vontade de sentir novamente vontade
A solidão que parece se auto-completar
Traz a saudade de sentir mais uma vez saudade
Tudo isso aqui parece tão pouco
Em um momento que parece durar uma eternidade curta
A cicatriz dura mais tempo que a ferida
Mas não é sucifiente quando a alma não luta
Sem voz, o grito não quebra o silêncio
E sem o primeiro passo, o caminho ainda fica no futuro
A vela pode passar um aeon em sua mão
Mas se não acendê-la, você permanecerá esse aeon no escuro
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